O post com o maravilhoso texto foi publicado no dia 5 de julho de 2018. Segue abaixo o post:
Querida garota do
maiô verde:
Sou a mulher da toalha ao lado. A que veio com um menino e
uma menina.
Antes de mais nada, quero te dizer que estou me divertindo
muito perto de você e de seus amigos, neste pedacinho de tempo em que nossos
espaços se tocam e suas risadas, sua conversa ‘transcendental’ e a música de
sua turma me invadem o ar.
Fiquei meio atordoada ao perceber que não sei em que momento
de minha vida deixei de estar aí para estar aqui: deixei de ser a menina para
ser “a senhora do lado”, deixei de ser a que vai com os amigos para ser a que
vai com as crianças.
Mas não te escrevo por nada disso. Escrevo porque gostaria
de te dizer que prestei atenção em você. Não pude evitar.
Vi que você foi a última a ficar só em traje de banho.
Vi você ficar atrás de todo o grupo, discretamente, e tirar
a camiseta quando acreditava que ninguém estava olhando. Mas eu estava. Não
estava olhando para você, mas te vi.
Vi você se sentar na toalha em uma postura cuidadosa,
tapando o ventre com os braços.
Vi você colocar o cabelo atrás da orelha inclinando a cabeça
para alcançá-la, talvez para não tirar os braços de sua estudadíssima posição
casual.
Vi você se levantar para ir dar um mergulho e engolir em
seco, nervosa por ter de esperar assim, de pé, exposta, por sua amiga, e usar
uma vez mais seus braços para encobrir as estrias, a flacidez, a celulite.
Vi você agoniada por não conseguir tapar tudo ao mesmo tempo
enquanto ia se afastando do grupo tão discretamente como tinha feito antes para
tirar a camiseta.
Não sei se tinha algo a ver, em sua insatisfação consigo
mesma, o fato de a amiga por quem você esperava soltar a longuíssimo cabeleira
sobre umas costas em que só faltavam as asas da Victoria’s Secret. E enquanto
isso você ali, olhando para o chão. Procurando um esconderijo em si mesma, de
si mesma.
E eu gostaria de poder te dizer tantas coisas, querida garota
do maiô verde… Talvez porque eu, antes de ser a mulher que vem com as crianças,
já estive aí, na sua toalha.
Eu gostaria de poder te dizer que, na verdade, estive na sua
toalha e na de sua amiga. Fui você e fui ela. E agora não sou nenhuma das duas
– ou talvez ainda seja ambas – assim, se pudesse voltar atrás, escolheria
simplesmente curtir a vida em vez de me preocupar – ou me vangloriar – por
coisas como em qual das duas toalhas, a dela ou a sua, prefiro estar.
Queria poder te dizer que vi que carrega um livro na bolsa,
e que qualquer ventre que agora tenha seus dezesseis anos provavelmente perderá
a firmeza muito antes de você perder o juízo.
Eu gostaria de poder te dizer que você tem um sorriso lindo
e que é uma pena estar tão ocupada em se esconder que não te sobre tempo para
sorrir mais vezes.
Eu gostaria de poder te dizer que esse corpo do qual você
parece se envergonhar é belo simplesmente por ser jovem. É belo só por estar
vivo. Por ser invólucro e transporte de quem você realmente é e poder te
acompanhar em tudo que você faz.
Eu adoraria te dizer que gostaria que você se visse com os
olhos de uma mulher de trinta e tantos porque talvez então percebesse o muito
que merece ser amada, inclusive por você mesma.
Eu gostaria de poder te dizer que a pessoa que um dia te
amar de verdade não amará a pessoa que você é apesar de seu corpo e sim adorará
seu corpo: cada curva, cada buraquinho, cada linha, cada pinta. Adorará o mapa,
único e precioso, que se desenha em seu corpo e, se não o fizer, se não te amar
desse jeito, então não merece seu amor.
Eu gostaria de poder te dizer – e acredite, mas acredite
mesmo – que você é perfeita do jeito que é: sublime em sua imperfeição.
O que posso te dizer eu, que sou só a mulher do lado?
Mas – sabe de uma coisa? – estou aqui com minha filha. É
aquela do maiô rosa, a que está brincando no rio e se sujando de areia. Sua
única preocupação hoje foi se a água estava muito fria.
Não posso te dizer nada, querida garota do maiô verde…
Mas vou dizer tudo, TUDO, a ela.
E direi tudo, TUDO, ao meu filho também.
Porque é assim que todos merecemos ser amados.
E é assim que todos deveríamos amar.
(Jessica Gómez, 5 de
Julho de 2018)
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